MANIFESTO PELA DEMOCRACIA DOMÉSTICA

Um espectro ronda os lares. Tremei gerontes e plutocratas do lar: a vanguarda romperá nossos grilhões.

Necessito relatar minha experiência, camaradas! Vislumbro a vitória em breve!

Família Comunista Feliz

Não me acusem de oportunista, apenas aproveitei do contexto paritário da universidade para trazer a democracia para meu lar.

Convoquei minha mãe e padrasto para uma Assembléia Geral na sala de casa. Expliquei a todos que necessitamos implantar a democracia aqui no nosso lar: as decisões não podem continuar a ser tomadas majoritariamente pela minha mãe, depois pelo meu padrasto (pobre alienado que não consciência do poder que tem), e por último eu.

Note-se que minha opinião quase nunca é levada em conta. E, para piorar, sempre quando minha mãe vai perder, ela produz um dos seus velhos golpes. Um exemplo nato foi quando deliberamos assistir UFC bem horário da novela dela. Apesar de ganharmos por 2 votos a 1, ela não se deu por vencida e arbitrariamente cortou o UFC do pacote de TV a cabo.

Comecei explicando que essa forma de gestão do lar vigente é ultrapassada. Esses modelos patriarcais – no meu caso matriarcal – não correspondem a uma democracia do modelo de decisões. Remontam a uma ditadura dos mais velhos!

Argumentei que vivemos todos no mesmo lar, temos os mesmos objetivos, apenas os meios se diferenciam, pois são eles os conservadores e eu vanguardista, revolucionário, classista, puro, independente e bonzinho, no entanto — reitero — queremos todos o bem da casa.

Por vivermos no mesmo lar, devemos os três paritariamente tomar as decisões. Ainda ressaltei que não devemos valorizar essa distinção meritocrática, não venham dizer que são eles os mais capacitados por serem mais experientes, mais velhos, mais responsáveis. Nada disso! Só quero democracia, somos todos iguais.

— Mamãe, isso não é argumento que se preze. AN-TI-DE-MO-CRÁ-TI-CA!

Falei por horas a fio e vi nos olhos de mamãe que ela não conseguiria vencer meus argumentos; estava, com certeza, conspirando enquanto me escutava. (As jornadas revolucionárias me ensinaram que bons ouvintes geralmente estão pensando em outra coisa). Já meu padrasto parecia não se importar muito, talvez nem entendesse o que eu brilhantemente estava expondo: tinha mais cara de fome do que qualquer outra coisa!

Por óbvio venci a argumentação. Camaradas, gritar por democracia é uma bela forma de tentar vencer quando não se tem bons argumentos.

Ainda que uma coisa não tenha nada com a outra, grite por democracia. Grite! Ser contra a democracia, atualmente, é mais feio que ser a favor do câncer!

Um silêncio assustador pairava na sala. Minha mãe, que escutava calada, pediu licença, foi em direção ao quarto e disse que voltava em um instante. Meu padrasto aproveitou para ir buscar comida, por isto está tão gordo.

Minha mãe voltou com uma pasta, tirou um boleto de um apartamento que ela comprou recentemente para a gente e me entregou.

O valor é superior a minha mesada e a minha bolsa de estágio somados. Tinha consciência que ela tramava algo.

Ela começou a falar, disse que democracia é um conceito com muitas facetas.

— A mais evidente, infante Tavinho, parece ser a de participação de todos em um processo de decisão. Trata-se de um valor central de nossa sociedade e a eleição de dirigentes é um componente importante desse conceito, mas não é o único. Um dirigente pode ser eleito democraticamente e não se ter democracia.

Assim, mais do que o modo como é escolhido o dirigente, em um lar, democracia tem a ver com decisões colegiadas e com o princípio de que a todo poder deve corresponder uma res-pon-as-bi-li-da-de e vice-versa.

A essa altura, eu já estava bufando. A ninguém deve ser dado o direito de citar o camarada Peter Parker em vão. Ninguém! E ela continuava:

— Democracia tem a ver com poder responsável. Um tirano não tem de responder pelo poder que tem. Desse modo, não é justo que aqueles que têm a responsabilidade de tomar as iniciativas do lar não tenham o poder correspondente na hora de tomar decisões de casa.

Nesse momento ela bradou: “quer decidir? Arque com as responsabilidades de poder decidir. Comece custeando um terço das obrigações, despesas, responsabilidades”. É claro que não quero responsabilidades, quero só poder decidir democraticamente e com isso já me satisfaço. É um fim belo e justo por si, nada além.

Minha mãe e meu padrasto tem que entender que sou diferente deles, temos papéis diferentes na casa. Eles fazem todo o trabalho, mas todos nós devemos gozar dos frutos. “De cada um segundo suas capacidades e a cada um segundo suas necessidades”, já dizia Marx. Sou muito jovem para ter capacidade de dividir as despesas, mas já sinto a necessidade de receber 1/3 dos rendimentos.
Sei que minha permanência nesse lar é passageira, afinal devo me mudar quando casar, mas quero decidir enquanto estiver aqui!

Num momento de fúria revolucionária, rasguei o boleto do apartamento que ela me entregou, busquei meu macbook no meu quarto e me refugiei na cozinha. Tranquei a porta, tratei logo de passar um cadeado na dispensa, desliguei a geladeira, fiz uma barricada na porta de acesso.

“Ninguém come até que a democracia na gestão do lar seja implantada nessa casa!”, foi o que pichei na parede da sala.

É claro que eu continuo comendo, não porque sou melhor, mas porque devo conservar minhas energias vanguardistas, afinal preciso me manter forte para liderar essa revolução. Como sou jovem, até mesmo quando erro não é culpa minha, é sempre na busca incessante de acertar. Sou um inocente nessa sociedade opressora, onde os pais dominam os meios de produção. Até mesmo meus valores não são ainda consolidados, mas são os melhores, é claro. Não é relativismo moral, é a desresponsabilização individual empregada a meu favor.

Camaradas, construí uma estratégia excelente. Na calada da noite forneço cerveja e coxinhas de frango frito ao meu padrasto, aquele morto de fome. Assim pretendo convencê-lo de que a revolução é para nosso bem. Afirmei para ele que caso façamos uma gestão conjunta paritária ele poderá trabalhar menos, assistir mais TV, comer mais, descansar mais.

E vou na mesma balada: chega de contra-partidas nessa casa! Isso é uma família e não uma relação econômica, ora, cadê a solidariedade? Egoísmo é quando as pessoas pensam apenas no bem de si mesmas, em vez de pensarem em mim. Quero minha mesada sem precisar fazer nada, chega de opressão da minha mãe controlar meu rendimento acadêmico. Não importa se ela custeou minha educação, não importa se hoje a sociedade custeia a minha universidade, justamente os mais pobres que não tem acesso ao nível superior público, apesar de pagar por ele. Não devo nada a ninguém. Chega de qualquer controle, quero sair sempre que me der vontade, viajar sempre que me der vontade, fazer o que eu quiser aqui e nada de ser responsabilizado. A responsabilidade vem depois, né? Tudo tem sua hora, companheiros!

Temos um belo horizonte de liberdade a vista, só meu padrasto parece não entender… Tende piedade dos alienados, Senhor, eles não conhecem seus interesses! No entanto, já estou o convencendo a vir ocupar a cozinha comigo. Apesar dele morrer de medo da mamãe, sinto que em breve estará comigo na revolução paritária.

Camaradas, relato aqui minha experiência em curso, preciso do apoio de vocês para manter a revolução. Venham comigo ocupar essa cozinha. Esta é a primeira, a próxima é a da sua casa e assim sucessivamente, por todas as cozinhas da face da terra. Venham logo, esta ocupação aqui não está me deixando ir malhar, frequentar minhas aulinhas de francês e visitar minha paquera. Preciso logo de um revezamento na ocupação. Pela revolução, camaradas!

Do front de batalha da cozinha do apartamento 513, Edifício Vivenda da Liberdade,
Saudações vanguardistas da fábula do lar.
Hábraços paritários.

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